Toda vez que falo sobre interoperabilidade, tento começar pelo essencial: interoperar não é “conectar sistemas”. É alinhar um ecossistema em quatro dimensões: legal, organizacional, semântica e técnica. (E sim: a técnica é só uma parte.)
Na minha experiência, quando um país ou uma rede de saúde leva a interoperabilidade a sério, o investimento real se parece mais com isto:
~75%: marcos habilitadores (legal/regulatório), acordos organizacionais, governança, e decisões semânticas (dados + terminologias).
~25%: implementação técnica (plataformas, APIs, integração, infraestrutura).
Então… por que falamos tanto de HL7 FHIR quando falamos de interoperabilidade?
Porque é a parte mais visível e “tangível”. E às vezes repetimos o mesmo viés de sempre: acreditar que interoperar = software (assim como acreditar que transformação digital = comprar um sistema).
Adotar o HL7 FHIR não é o ponto de partida. É uma consequência.
Antes de falar de FHIR, normalmente você já deveria ter resolvido (ou encaminhado) isto:
- ✅ Casos de uso: que problema de saúde precisa de troca de dados.
- ✅ Conjuntos de dados (uso primário e secundário): quais dados são necessários e com que qualidade.
- ✅ Estratégia de estruturação de dados (modelagem, qualidade, rastreabilidade).
- ✅ Terminologias clínicas e administrativas: quais são adotadas e como são operadas (ValueSets, mapeamentos, governança).
- ✅ Governança: quem gera/consome o dado, responsabilidades, auditoria, consentimento/segurança, e operação de serviços compartilhados.
- ✅ Aspectos jurídicos habilitadores: base legal para troca, privacidade, uso secundário, retenção, etc.
- ✅ Equipes setoriais (não só TI): clínicos, gestão, jurídico, estatística/epidemiologia, e quem opera o processo.
O que a decisão de usar FHIR realmente provoca?
Ela organiza parte da rota técnica e acelera a padronização do intercâmbio: define um “idioma” de dados e uma forma moderna de expô-los, com um núcleo comum e mecanismos de extensão para o que é particular de cada contexto.
O FHIR é fundamental, mas chega tarde na história. Se só falamos de FHIR, estamos olhando a ponta… e deixando embaixo o que realmente determina o sucesso.
Porque interoperar em saúde é como cozinhar bem: não se consegue com um único ingrediente. Adotar um padrão sem resolver o resto pode ser uma receita… para a frustração.
Quando falamos de HL7 FHIR não estamos falando de “um software”. Estamos falando de dados: como são gerados, governados, codificados, compartilhados e usados.


